4 de julho de 2012

Plágio: a culpa é de quem?

Plágio: a culpa é de quem?:
Na internet encontramos nossos textos copiados sem ser citada a fonte. Nos casos mais graves, há a reprodução literal com autoria diferente, ou seja, o “autor” não vacila em assumir como seu a produção intelectual de outrem e não tem o mínimo temor em ser descoberto. Talvez por ignorância, quem sabe por outros motivos, o “autor” não leva em conta que a internet é um espaço público e que, portanto, a fraude será descoberta. Certa vez, por exemplo, uma leitora da REA encontrou um texto da revista publicado em outro site e com autoria diferente. Enquanto editor da REA entrei em contato com o responsável e o texto foi retirado do ar.
Há plágio em todas as áreas. Há casos ocorridos no âmbito da pós-graduação – o pós-graduando aprovado teve seu trabalho contestado por outro colega, pois parte do texto avaliado pela banca era cópia. Noutro caso, o plágio foi feito em um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e o aluno foi reprovado.
A reprodução do trabalho alheio sem citação de fonte, pelo simples mecanismo do CONTROL C + CONTROL V, é um dos principais problemas que os docentes enfrentam na atualidade. Na era da internet, do MSN, das redes sociais, etc., é muito fácil comunicar, mas também plagiar o outro. Se antes, para evitar a “cola”, o professor atuava como uma espécie de vigilante, agora ele precisa se valer de instrumentos tecnológicos que mensuram e indicam se houve ou não plágios – na internet há programas e serviços com este objetivo.
O que fazer diante de um caso específico, e mais comum na práxis docente, do plágio que envolve nossos alunos na graduação? A atitude mais comum é simplesmente zerar a nota. Certa vez, ao ler os trabalhos de dois alunos percebi que os textos eram idênticos. Fiquei a pensar porque agiram assim, mas não tive dúvidas em zerar a nota de ambos. Será que eles imaginaram que os trabalhos não seriam lidos? Por que escolheram o caminho que parecia o mais fácil? Comuniquei a ambos minha decisão e não houve contestação. O silêncio deles representou o assumir a culpa.
De outra feita, ocorreu um caso paradoxal. A aluna copiou vários trechos de um trabalho de minha autoria publicado na internet. * Foi incomum! Há, portanto, casos e casos. O plágio pode ser individual – no qual o indivíduo copia material disponível na internet – ou pode envolver mais de um, as vezes numa rede de solidariedade às avessas. Há, ainda, aqueles que pagam para outros fazerem seus trabalhos, e o plágio pode ser resultado do trabalho de quem presta o serviço. Neste caso, se descoberto, pode-se tentar reaver o dinheiro e, quem sabe, reclamar no PROCON.
Nos exemplos acima, não há inocência. O plagiador assume os riscos e deve assumir as conseqüências. Mas, e se o meu trabalho foi utilizado por um colega sem a minha autorização? Se sou pego de surpresa diante de um plágio que me envolve, mas do qual não tinha conhecimento, devo ser punido? Se alguém teve acesso ao meu texto, e numa clara atitude de abuso de confiança copia o meu trabalho e entrega ao mesmo professor que nos avaliará, sou culpado também? Mesmo que eu prove e que a pessoa assuma o que fez, é justo que eu seja punido? Como agir diante de uma situação como esta?
O professor tem diante de si dois trabalhos idênticos e, burocraticamente, toma sua decisão. Será uma decisão justa? Por que não convocar as partes envolvidas, ouvi-las e decidir segundo princípios de justiça. Não é mais sensato considerar os argumentos que tentam provar a inocência? Nestes momentos, é preciso sensibilidade e tratamento adequado do problema. Claro, nós professores temos o poder para decidir, e contamos com o apoio dos nossos pares. Mas da mesma forma que o plagiador abusou da confiança, precisamos também ter o cuidado de não abusarmos do poder de atribuir notas. Do contrário, plagiador e avaliador, e os pares que nos apóiam, terminam por cometer uma injustiça.
Afinal, de quem é a culpa do plágio? Talvez não se trate de identificar culpados, mas de analisarmos as causas que levam ao plágio, ao abuso de confiança – na relação professor-aluno e aluno-aluno. Talvez seja necessário repensarmos as nossas atitudes diante do plágio, pois como afirma a Professora Ivy Judensnaider, a penalidade não resolve o problema: “A questão que se coloca, acima de qualquer outra, é como ensinar aos alunos a importância da produção acadêmica sem a recorrência ao plágio ou à cópia”.** De qualquer forma, e ainda que discordemos dela, precisamos ter a sensibilidade e o cuidado necessários para não cometermos injustiças.

* Ver “Déjà vu! Um causo especial de “cola”, disponível em http://antoniozai.wordpress.com/2008/12/10/deja-vu-um-causo-especial-de-%E2%80%9Ccola%E2%80%9D/
** JUDENSNAIDER, Ivy. O plágio, a cópia e a intertextualidade na produção acadêmica. REA, nº 123, Outubro de 2011, disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/14244/7987

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