Luiz Felipe Pondé
“Nem o papa aguentou!” (15.02.2013)

No
dia da renúncia do papa, uma amiga minha querida, portadora de uma
personalidade difícil (acha quase todo mundo bobo), mandou-me uma
mensagem assim: “Nem o papa aguentou!”.
Afinal, o
que ele não teria aguentado? Peço licença à minha amiga nojenta para
tomar sua exclamação e fazer um pouco de filosofia selvagem a partir
dela. Antes, esclareço que não sofro do comum preconceito de pessoas
inteligentinhas contra a Igreja Católica. Qual é esse preconceito? Hoje
em dia, num mundo em que todo o mundo diz que não tem preconceito, o
único preconceito aceito pelos inteligentinhos é contra a igreja:
opressora, machista, medieval…
Estudei anos
num colégio jesuíta. Graças aos padres aprendi a coragem intelectual, o
gosto pelas letras, o valor da liberdade religiosa, o esforço de pensar
de modo claro e distinto, o respeito pelas meninas, ao mesmo tempo em
que crescíamos num ambiente no qual Eros nunca foi demonizado; enfim, só
tenho coisas boas para dizer sobre meus anos de escola jesuíta.
Cresci numa
escola na qual, durante a semana, discutíamos como um “mundo mau” pode
ter sido criado por um Deus bom. No final de semana, íamos à praia todos
juntos, dormíamos lá, meninos e meninas, em paz, namorando, e enchíamos
a cara. Noutro final de semana, o mesmo grupo ia a favelas ajudar
doentes. Tive, numa pequena amostra, uma prova do enorme papel
civilizador da igreja e do cristianismo como um todo no mundo.
Dizer que a
igreja padece de males humanos e que compartilhou de violência de todos
os tipos é óbvio demais para valer a pena um minuto de reflexão. Em
jargão teológico, essa “dupla personalidade de bem x mal” não é
bipolaridade moral, mas uma dupla identidade: a igreja teria um corpo
mundano (pecador como o de todo o mundo) e um corpo místico (voltado a
Deus, à eternidade, inserido no mundo assim como Deus encarnou num
homem, Jesus).
Portanto,
não sou um desses ateuzinhos que, no fundo, não passam de “teenager”
bravo porque o pai não existe. Parafraseando o grande Beckett, “God does
not exist –that bastard!” (Deus não existe –aquele bastardo!).
Joseph
Ratzinger (Bento 16) é um homem inteligente que quis levantar o nível do
debate dentro da igreja e na sociedade como um todo. Um filósofo.
Resistiu bravamente à contaminação por uma teologia populista e
marqueteira, mas sucumbiu à ancestral vocação humana para a mentira e
para a vida burocrática. Hoje, quase tudo no mundo é populista e
marqueteiro; lembremos da máxima da grande escritora portuguesa Agustina
Bessa-Luís: hoje todo mundo quer agradar, até o metafísico.
Foi isso que
o papa não aguentou: ele esbarrou no diagnóstico da contemporaneidade
feito pela Agustina Bessa-Luís. Todo o mundo só quer agradar “seu
eleitorado” e Bento 16 quis tratar seu eleitorado como gente grande.
Resultado: angariou inimigos em toda parte porque rompeu o jogo comum de
“falar muito e dizer nada”, típico da sensibilidade democrática em que
vivemos e também da igreja na “sua base popular”.
Num mundo de
sensibilidade democrática, ninguém quer saber de nada a sério. A
“afetação infantil” (Bessa-Luís, de novo) nos define. O “povo é sempre
lindo e certo!”. Na democracia, a soberania do governo emana do povo;
daí que achar que o “povo é sempre lindo” é um efeito colateral deste
modo da soberania. Logo, todo o mundo só quer agradar, e Bento 16 não
quis agradar, quis falar a sério.
Sucumbiu às intrigas palacianas, à inércia da estupidez do mundo de ruídos e baladas metafísicas.
As pessoas
odeiam quem quer falar a sério. Não querem mais um papa, e sim um
consultor de sucesso espiritual e Ratzinger não tem vocação para isso. A
maioria das pessoas quer apenas comprar, divertir-se, ter uma
autoestima alta, gozar livremente, não sentir culpa alguma; enfim, ter
uma vida moral de criança de dez anos de idade.
Nem o papa aguentou.
Preferiu “fracassar como Sócrates” a vencer como um demagogo feliz. No
início da quaresma (período em que devemos refletir sobre nossos
demônios), denunciou com sua renúncia o mais velho demônio da igreja: a
política.
Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 15.02.2012) | Outra fonte para este artigo: AQUI

** ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA **
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