5 de outubro de 2012

A Vida Real Não é uma Timeline do Facebook

A Vida Real Não é uma Timeline do Facebook:

A sociedade porto-alegrense tem as suas particularidades. Tenho muito apreço pela maioria delas, e não passa um dia que eu não sinta saudades da minha terra. Mas algumas idiossincrasias, para não dizer idiotices, não são admiradas por este que vos escreve.

Ontem um grupo de manifestantes se organizou (via redes sociais) e protagonizou um ato de agressão ao boneco inflável do tatu-bola, mascote da Copa do Mundo de 2014, que estava no Largo Glênio Peres (ler AQUI).

Este episódio segue ao ocorrido no auditório Araújo Viana depois do show do Tom Zé. Os manifestantes decidiram queimar objetos (uma lata inflável de Coca-cola) dos patrocinadores do show no local e arredores do evento.

Fora os atos de vandalismo, que não configuram uma expressão pacífica da liberdade de expressão, o motivo da revolta é o que mais impressiona. Estes grupos estão revoltados (às vésperas das eleições) porque, segundo eles, a prefeitura está transformando áreas públicas em privadas, através do uso de concessões.

De fato, o auditório Araújo Viana agora conta com uma administradora que fez toda a reforma do local, e hoje o administra. É verdade também que a Copa do Mundo conta com patrocinadores privados. O que assusta é o fato de as pessoas não compreenderem que essa forma de administração é a melhor forma encontrada para atrair os eventos para a cidade.

As grades ao redor do teatro não foram colocadas para que o público não assistisse aos eventos, e sim, para que que vândalos não destruíssem as instalações e deteriorassem o patrimônio. A Copa é um evento organizado por uma instituição privada. Assim como qualquer jogo de futebol. Se há dinheiro público envolvido, é porque é do interesse público financiar o evento, e o lugar de se questionar isso é o Congresso.

Uma das muitas diferenças entre o público e o privado é que as entidades privadas tem maior zelo na manutenção do que é seu, pois os custos são incorridos pela própria entidade e não transferidos aos contribuintes. Muitas vezes, deixamos de ter acesso aos bens ou áreas públicas pela falta de cuidados de manutenção do local. Quem gosta de praias sujas ou praças com bancos quebrados? O público e o privado precisam andar juntos, sendo complementares, para a sociedade evoluir.



Mais chocante ainda é a contradição conceitual desses manifestantes. Eles se organizam via Facebook, uma empresa privada com fins (muito) lucrativos e que inclusive não possui grande zelo pelos acionistas minoritários. Mais do que isso, navegam horas no site sendo expostos a milhares de anúncios e não reclamam, achando que a rede social "é de graça".

Lá, na rede social (que é privada, OK?), eles gritam, colocam posts, entram em discussões intermináveis, xingam e inundam as timelines dos outros com seus pensamentos. Quando você dá um block em alguém ou bane de uma comunidade, eles ficam mais revoltadinhos ainda.

O que essas pessoas não entendem é que a vida real não é como a timeline do Facebook ou do Orkut. Na vida real a sociedade responde e não apenas dá block ou desfaz a "amizade". Na vida real as ações tem, ou deveriam ter, conseqüências. A sociedade vai reagir e a polícia tem o direito e o dever, transferido pela população, de preservar o patrimônio público e privado.

Queimar objetos infláveis não ajuda em nada na discussão sobre modelos de administração de áreas ou eventos com perfil público (como grandes shows e a Copa do Mundo). O lugar de se discutir isso é na Câmara Municipal ou através de manifestações pacíficas que, de preferência, garantam os direitos ao sossego e de ir e vir dos demais cidadãos.

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